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Alergia ao látex
Por: Rosimeire A. Mendes Lopes
Enfermeira, Assessora de Recursos Materiais do Centro
de Atenção Integral à Saúde
da Mulher (CAISM) - UNICAMP
Durante as últimas décadas, a prevalência
das doenças alérgicas tem aumentado, especialmente
nos países mais industrializados. As razões
para o aumento da morbidade das doenças alérgicas
são ainda desconhecidas, mas fatores hereditários
e ambientais são reconhecidamente importantes,
e o nível de exposição aos alérgenos
é um dos fatores de risco para o desenvolvimento
da sensibilização, entre outros (ULJA
& WICKMAN, 1998; Von MUTIUS, 2000).
No ambiente interno de trabalho, o aumento da morbidade
das doenças alérgicas pode estar relacionado
ao aumento da exposição alergênica
(CARRER et aI., 2001). O desenvolvimento e a introdução
de novos processos ou produtos nos locais de trabalho
têm exercido influência na relação
entre riscos e desenvolvimento de saúde ou doença.
Além disso, esta relação executada
sob determinadas condições tem levado
ao aumento da exposição ocupacional, resultando
em acidentes do trabalho ou doenças ocupacionais.
No ambiente hospitalar, as doenças ocupacionais
como a asma, rinite e dermatoses são consideradas
decorrentes da exposição a estas fontes
de alérgenos (BERNSTEIN, 1997).
Estudos têm indicado o aumento da incidência
de alergia ao látex devido, principalmente, ao
aumento exponencial no consumo, nestas últimas
duas déca-das, de luvas ou pelas mudanças
no pro-cesso de manufatura destes insumos (SUSSMAN &
BEEZHOLD, 1995; WOODS et aI., 1997; WARSHAW, 1998).
Este aumento coincide com a introdução
das precauções universais, atualmente
denominadas de precauções-padrão,
pelo Centers for Disease ContraI (CDC), onde se enfatiza
a necessidade do uso de precauções de
barreira, como luvas, quando em contato com sangue ou
fluídos corporais.
Tipos de reação ao látex
As três manifestações clínicas
conhecidas e discutidas na literatura, relacionadas
ao uso de luvas de látex de borracha natural
no trabalho, são: dermatite irritante de contato,
dermatite alérgica de contato ou hipersensibilidade
tardia do Tipo IV e hipersensibilidade do tipo I, que
é a reação mais grave provocada
pelo látex.
Grupo de risco
O grupo de indivíduos com alto risco para a hipersensibilidade
do tipo I ao látex por exposição
continuada ou freqüente a produtos de látex
como luvas, cateteres, drenas, máscaras e tubos
de anestesia inclui trabalhadores da área da
saúde, pacientes com espinha bífida, com
anormalidades no trato geniturinário (MONERET-VAUNTRIN
& BEAUNDOVIN, 1993; NIGGERMANN eta!., 1998), aqueles
que foram submetidos a vários procedimentos cirúrgicos
(LEBENBOM MANSOUR et aI., 1997), além de trabalhadores
da indústria da borracha e indivíduos
atópicos (KORNIEWICZ e KELLY, 1995).
Prevalência
Há poucos estudos realizados para se conhecer
a exata prevalência de hipersensibilidade do tipo
I ao látex na população geral,
isto é, nos indivíduos fora dos grupos
considerados de risco. Acredita-se que a prevalência
de alergia ao látex na população
não atópica seja menor que 1 % (SUSSMAN
& BEEZHOLD, 1995). Contudo, através de estudos
na população geral, a prevalência
de IgE antilátex tem sido estimada entre 3,5%
e 6,4% (OWNBY et aI., 1996; SENNA, et ai., 1999). LEBENBOM-MANSOUR
et aI. (1997), estudaram 996 pacientes cirúrgicos
ambulatoriais e encontraram 6,7% de indivíduos
com anticorpo específico ao látex através
de análise sorológica. A maior parte dos
estudos entre trabalhadores da saúde estima entre
2% a 17% a hipersensibilidade do tipo I ao látex.
Essa variação pode ser devida às
diferenças nos métodos ou reagentes empregados
para estimar a prevalência nestes estudos, diferenças
nos critérios de seleção dos sujeitos,
bem como diferenças nos grupos estudados (WARSHA\v,
1998).
Em estudos europeus a prevalência de positividade
pelo TCP ao látex variou de 0,9% a 10,8%. Na
França, a prevalência obtida de hipersensibilidade
do tipo I ao látex foi de 10,7% entre enfermeiros
de centro cirúrgico (LAGIER et ai., 1992). VANDENPLAS
et ai. (1995), na Bélgica, encontraram 4,7% de
sensibilização alérgica do tipo
I ao látex. HANDFIELD-JONES (1998), estudando
53 trabalhadores desse grupo de risco num hospital britânico,
encontrou prevalência de alergia ao látex
do tipo I de 0,9%, pelo TCP com extrato de luvas. JÁ
SMEDLEY et ai., (1999), realizando testes cutâneo
por punctura e soro lógico em 59 trabalhadores
da saúde, encontraram prevalência de 3,30/0
GALOBARDES et ai. (2001) encontraram sensibilização
alérgica do tipo I ao látex de 10,8% no
grupo de expostos e 6% no grupo de não expostos
num hospital na Suíça.
Estudos americanos e canadenses mostraram taxas elevadas
de prevalência de sensibilização
alérgica do tipo I ao látex, variando
entre 6,2% a 30%. HUNT et ai. (1995), encontraram 30%
de sensibilização alérgica do tipo
I ao látex em 342 trabalhadores da saúde
com sintomas ao uso de luvas de látex, num hospital
americano. GRZYBOWSKI et ai. (1996), encontraram 8,9%
de indivíduos com IgE antilátex em 741
enfermeiros voluntários, sendo que 3,6% tiveram
resultado fortemente positivo. LISS et ai. (1997), no
Canadá, obtiveram 12,1 % de prevalência
em 1.351 trabalhadores da área hospitalar pelo
TCp, sendo mais alta entre os trabalhadores do laboratório
(16,9%), enfermeiros e médicos (13,30/0) do que
no restante da população estudada. BROWN,
SCHAUBLE, HAMILTON (1998), através de análise
soro lógica determinaram a prevalência
de 12,5% de hipersensibilidade do tipo I ao látex
entre anestesistas e enfermeiras anestesistas, sendo
que 2,4% dos indivíduos apresentavam sintomas
clínicos e 10,1% não. WATTS et aI. (1998),
através do teste de punctura dérmica encontraram
prevalência de 14% de hipersensibilidade do tipo
I ao látex entre trabalhadores de unidade de
cuidados intensivos. PAGE et ai. (2000), determinaram
a prevalência de 6,2% de sensibilização
ao látex, estudando a presença de IgE
antilátex em 531 trabalhadores da saúde.
Para LEUNG et aI. (1997), na China, através do
estudo de TCP a prevalência encontrada de hipersensibilidade
do tipo I ao látex foi de 6,8%.
Há estudos que descrevem a hipersensibilidade
do"tipo I ao látex nos países da
América do Sul. Em investigação
sorológica na Argentina, envolvendo 249 pacientes
atendidos em um hospital de ensino, a prevalência
encontrada foi de 17,3% em trabalhadores da saúde
(17/98) e o restante dos pacientes estudados correspondeu
a 21,2% dos sensibilizados (32/151) (DOCENA, et aI.,
1999). GELLER, PAIVA, GELLER (1997), no Brasil, apresentaram
o primeiro estudo brasileiro epidemiológico controlado
de alergia ao látex, estudando 50 profissionais
da área cirúrgica de um hospital metropolitano
do Rio de Janeiro e encontraram 6% de sensibilização
alérgica, através do TCP. Todos os casos
de testes positivos apresentavam história pessoal
e familiar positiva para atopia e alergia de contato
ao látex.
Outro estudo brasileiro foi realizado com 96 trabalhadores
da área da saúde em uma UTI neonatal no
Centro de Atenção Integral à Saúde
da Mulher (CAISM) - UNICAMP e a prevalência obtida
foi de 8% (8/96), sendo dois enfermeiros, três
técnicos de enfermagem, um auxiliar de enfermagem,
um médico docente e um médico residente,
através do teste cutâneo de punctura com
antígeno extraído das luvas de látex
e detecção e quantificação
da IgE específica ao látex no soro foi
realizada através do método ELISA (enzymelinked
immunoabsorbent assay) and latexspecific immunoglobulin
E measure.
Reação cruzada entre alimentos e látex
.
A alergia a múltiplos alimentos, principalmente
frutas e castanhas, está, também, associada
à alergia a produtos de látex de borracha
natural. Alérgenos comuns ao látex e frutas
têm sido identificados, incluindo banana, abacate,
papaia, melão, manga, abacaxi e pêssego,
entre outros (BREHLER et ai., 1997). Esta reatividade
cruzada com alérgenos de outras plantas é
explicada pela presença de epitopos de IgE comuns
entre látex e frutas (KURUP & FINK, 2001).
Tratamento
Para indivíduos com hipersensibilidade do Tipo
I a única maneira de prevenir sintomatologia
é evitar utilizar ou entrar em contato com produtos
de látex de borracha natural. Oferecer um ambiente
seguro aos profissionais significa disponibilizar luvas
de matéria-prima que não seja de látex
de borracha natural, como luvas de nitrile ou vinil.As
luvas de látex mesmo sendo submetidas a processos
de manufatura especiais para obter produtos com baixos
níveis de proteína, não são
consideradas seguras devido à impossibilidade
de extração total das proteínas.
O uso de luvas com talco também devem ser desencorajados
para prevenir a sensibilização de novos
trabalhadores.
Os profissionais da saúde que apresentam hipersensibilidade
tardia do tipo IV aos aditivos químicos devem
ser diagnosticados precisamente e devem evitar marcas
de luvas que causam reação alérgica,
pois diferentes produtos apresentam potencial alergênico
diferente. Medidas para se reduzir dermatite irritante
inclui medidas como evitar o uso de luvas com talco;
melhorar a qualidade de papel-toalha utilizado para
enxugar as mãos, oferecendo produto macio e de
fácil absorção e deve ser considerada
também a qualidade dos sabões anti-sépticos
pela presença de produtos emolientes e umectantes
na formulação.
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Leia mais sobre os tipos de reações ao
látex e outras informações sobre
riscos profissionais em serviços de saúde
no site: www.riscobiologico.org
E-mail para contato com a autora do artigo: rosi@caism.unicamp.br
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