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Sociedade Brasileira de Análises Clínicas ABNT INMETRO
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Clinical Chemistry 48:5
691-698 (2002)
Mini-revisão
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Erros em Laboratório Clínico

PIERANGELO BONINI, 1,2* MARIO PLEBANI, 3 FERRUCIO CERIOTTI, 2 e FRANCESCA RUBBOLI 2
 
Background: Recentemente, o problema dos erros médicos vem recebendo muita atenção, que provavelmente crescerá. Nesta mini-revisão focalizamos a questão nos campos de Laboratório Clínico e transfusão de sangue.

Métodos: Realizamos várias pesquisas on-line no banco de dados MEDLINE e manualmente na literatura. Limitamo-nos aos últimos oito anos, a fim de identificar resultados que não tivessem sofrido bias devido à tecnologia obsoleta. Além disso, coletamos dados sobre a freqüência e tipo de erros pré-analíticos em nossa própria instituição.

Resultados: A nossa pesquisa revelou uma grande heterogeneidade no design e na qualidade dos estudos sobre o assunto, bem como uma quantidade relativamente reduzida de dados, e ainda a falta de uma definição aceita por todos para "erro de laboratório" (também chamado de "erro grosseiro", "engano", "problema" ou "defeito"). Apesar dessas limitações, observamos concordância considerável na atribuição de erros ao processo de trabalho em laboratório: a maior parte ocorrendo nas fases pré ou pós-analítica, enquanto uma minoria (13-32% segundo os estudos) ocorreu na fase analítica. Nos relatórios, a freqüência de erros foi relacionada com a maneira como eram identificados: descobriu-se uma quantidade substancialmente maior de erros quando era feita uma análise cuidadosa do processo do que quando os estudos dependiam de reclamações ou relatórios de ‘quase’ acidentes.

Conclusões: A grande heterogeneidade existente na literatura sobre erros de laboratório, juntamente com a prevalência da evidência de que a maioria dos erros ocorre na fase pré-analítica sugerem a implementação de uma metodologia mais rigorosa na detecção e classificação desses erros, assim como a adoção de metodologias apropriadas para a sua diminuição. As auditorias clínicas devem ser utilizadas como instrumentos para a detecção de erros devidos a problemas organizacionais fora do laboratório.
 
Notas de rodapé:

1 Universitá Vita-Salute San Raffaele, Cattedra di Biochimica Clinica, Via Olgettina 58, 20132 Milão, Itália.

2 Istituto Scientifico H.S. Raffaele, Servizio Integrato di Medicina di Laboratorio, Via Olgettina 60, 20132 Milão, Itália.

3 Servizio di Medicina di Laboratorio, Azienda Ospedaliera di Padova, Via Giustiniani 2, 35100 Padova, Itália.

* Autor para correspondência: Fax 39-02-2643-2640; e-mail: bonini.pierangelo@hsr.it.
 
A medição e a melhoria das conseqüências dos resultados de exames de laboratório sobre pacientes externos exige métodos que relacionem a qualidade total das informações sobre o laboratório com uma administração mais eficiente dos pacientes, incluindo diagnóstico, tratamento de doenças, monitoramento clínico e prevenção de doenças. A melhoria da qualidade analítica, documentada por testes de proficiência, deve garantir um desempenho efetivo dos laboratórios clínicos capaz de melhorar a saúde de um paciente. Além disso, a maior atenção à necessidade dos pacientes é comprovada por medidas eficientes para a melhoria da qualidade de todo o serviço oferecido, como, por exemplo, a redução do tempo de atendimento (TAT). No entanto, a melhoria do desempenho do laboratório não resulta automaticamente numa redução no número de erros, sejam estes analíticos ou organizacionais. Até mesmo os processos para certificação ou credenciamento concentram sua maior atenção no desempenho geral do laboratório em lugar de eventos tais como erros que, por sua própria natureza, é considerado exceção. Além do que, a ausência de uma definição universalmente aceita de "erro" e, acima de tudo, de "taxa permitida de erros", reduz a possibilidade de se avaliar o impacto do erro de laboratório sobre sua conseqüências para os pacientes.

Apesar da abundante literatura científica sobre a melhoria da qualidade nos laboratórios (principalmente a analítica), é escassa a literatura sobre erros em Laboratório Clínico. Uma das razões para isso, além da atenção insuficiente dedicada ao problema, é a dificuldade prática de relatar e registrar o número de erros.

De fato, são muitas as limitações encontradas nos planos de estudo de relatórios sobre a freqüência e os tipos de erros cometidos em laboratórios clínicos.

A primeira limitação consiste no fato da maioria desses estudos se dedicarem simplesmente a erros analíticos, que constituem apenas uma parte dos erros ocorridos e do processo total de testes, que inclui todas as fases, a pré, a intra e a pós-analítica. Outros estudos estão baseados em metodologias, tais como o tipo de espécimes divididos, que são insensíveis aos problemas no processo total de testes que podem ocorrer antes dos espécimes serem coletados e depois dos resultados terem sido obtidos pelo processo analítico (1,2).

A segunda limitação é a possibilidade, ou mesmo a probabilidade, de que os erros pré-analíticos mais freqüentes representem uma escolha inadequada de testes ou de um painel de testes de laboratório, e que a maioria dos erros pós-analíticos seja devido a interpretações e utilizações impróprias de resultados laboratoriais. Apesar das grandes diferenças existentes entre hospitais, no tocante a requisições e utilização de testes de laboratório (inclusive dentro do mesmo país) tenham sido descritas recentemente (3), umas revisões sistemáticas das auditorias realizadas em laboratórios clínicos demonstrou que muitos estudos que identificam o uso impróprio por laboratórios estavam baseados em critérios implícitos ou explícitos que não atendiam a padrões metodológicos (4).

Com relação à fase pós-analítica, somente se dispõe de alguns estudos que demonstram utilização ou resposta imprópria de resultados de laboratórios. Recentemente foi demonstrado que a introdução de novas facilidades tecnológicas (conexões on-line entre o laboratório e a enfermaria) sem uma organização adequada pode piorar, ao invés de melhorar, a comunicação entre laboratórios e médicos (5). A falta de notificação imediata e/ou a utilização clínica de um valor crítico podem ter conseqüências tão negativas quanto resultados errados. Conforme assinalado por Lundberg em notável editorial no JAMA (6), a interpretação e a ação apropriadas devem ser realizadas antes de se completar efetivamente o ciclo de testes de laboratório.

A terceira limitação reside em que, além de uma certa relutância em relatar seus próprios erros, é extremamente difícil para os laboratórios identificar todos os erros porque muitos destes não produzirão resultados anormais detectáveis nem suscitarão dúvidas no usuário. Apesar de suas observações não estarem baseadas em dados reais, Goldschmidt e Lent (7) estimam que até 75% dos erros produzem resultados ainda incluídos nos intervalos de referência, que ~ 12,5% produzem resultados errados que são tão absurdos que não são considerados clinicamente, e que os 12,5% remanescentes podem ter efeito sobre a saúde do paciente.

A quarta limitação consiste em que novos conhecimentos patofisiológicos e o desenvolvimento de testes de laboratórios altamente específicos e sensíveis modificaram a relação entre as informações do laboratório e os padrões-ouro. É este o caso dos danos ao miocárdio em síndromes coronarianas agudas, em que a medição de troponimas cardíacas é o método preferido para a detecção de danos ao miocárdio. O mesmo acontece com as análises moleculares para a avalição da suscetibilidade a doenças. Nesta e em outras situações clínicas onde é difícil ou impossível comparar resultados de laboratório a padrões-ouro, erros possiveis deveriam ser identificados pela avaliação da correspondência entre as informações fornecidas pelo laboratório e as conseqüências médicas.

Contrastando com a situação descrita acima, que está calcada essencialmente na literatura científica, os "erros em medicina", incluindo erros cometidos em laboratórios e problemas ocorridos em bancos de sangue, são freqüentemente citados pela mídia em geral mesmo quando a atenção tenha sido despertada por erros em outros setores do tratamento da saúde (e.g., medicamentos ou cirurgia). Em muitos desses relatórios, é sugerido que os erros relatados são apenas a ponta do iceberg e que as conseqüências para os pacientes podem ser mais graves do que é informado. Por este motivo, fizemos esta revisão da literatura científica sobre erros em Laboratório Clínico e em bancos de sangue.

Com referência a Laboratório Clínico, pesquisamos o banco de dados MEDLINE no período janeiro 1944 – junho 2001, cruzando diversos títulos; "serviços de diagnóstico, laboratórios", "química, clínica", "erros de diagnóstico" e "erros médicos". Todos os artigos em que aparecia "erros grosseiros OU problemas OU erros E laboratórios" no título também foram selecionados. Uma busca manual foi realizada, a partir das referências dos trabalhos selecionados. Finalmente, somente foram escolhidos artigos contendo informações sobre a totalidade do processo de testes (incluindo as fases pré, pós e analítica, e não apenas uma delas) onde os dados haviam sido obtidos por meio de coleta direta (não apenas por questionários), que estão comparados na Tabela 1.

No caso dos bancos de sangue, pesquisamos o banco de dados MEDLINE, no período janeiro, 1992 – junho, 2001, fazendo o cruzamento de diversos títulos: transfusões de sangue/procedimentos; incompatibilidade de grupo sanguíneo/complicações; transfusão de sangue/efeitos adversos; qualidade no tratamento de saúde; garantia da qualidade do controle da qualidade; tratamento de saúde/dados estatística e numéricos; garantia da qualidade/ tratamento de saúde/organização e administração; garantia da qualidade, tratamento de saúde/procedimentos; segurança; erros de medicação; e sistemas de identificação de pacientes/procedimentos. A partir desses resultados, realizamos manualmente busca e seleção adicionais. Os resultados estão apresentados na Tabela 2 e representam somente os estudos que incluem mais do que três hospitais ou períodos de coleta de dados superiores há um ano. Somente foi analisada a literatura mais recente porque os avanços ocorridos em informática de laboratórios, automação e qualidade analítica praticamente impossibilitariam comparações com estudos mais antigos (ver também a Tabela 3).

As características mais relevantes dos estudos relativos a erros de laboratório estão resumidos na Tabela 1: (a) período de coleta dos dados; (b) número de testes considerados; (c) número de pacientes envolvidos; (d) número total de erros e suas freqüências correspondentes; (e) distribuição de erros pelas fases pré-analítica, analítica e pós-analítica; (f) erros causados por identificação incorreta de pacientes; e (g) efeito dos erros sobre as conseqüências para os pacientes. As conclusões confirmam que existe um número muito limitado de estudos sobre esse assunto e que os existentes são muito heterogêneos. Esses estudos usaram metodologias diferentes na coleta de dados [análise do processo (8), auditoria e questionários (9), e coleta de reclamações (7)], o período de coleta de dados vai de três meses a dez anos, e os setores de laboratório examinados eram muito diferentes. Um outro obstáculo à comparação entre esses estudos ou para se chegar a conclusões gerais é que em alguns relatórios os erros estão indexados a pacientes, enquanto em outros os erros estão indexados a testes realizados. Os dados foram parcialmente re-elaborados para o cálculo de freqüências, para distribuí-los pelas fases do processo de trabalho, e para harmonizar as categorias relevantes com efeitos sobre conseqüências para os pacientes. Os dados exibidos evidenciam que o método de coleta tem muita influência sobre a prevalência e os tipos de erros. Por exemplo, quando a coleta de dados era baseada em reclamações (7) ou na descoberta mais ou menos fortuita de erros grosseiros (10), os erros relatados eram atribuídos principalmente à identificação errônea, e o seu número era relativamente baixo: 113 erros em 6 anos (7) ou 0,05% (10). Por outro lado, quando se realizou uma revisão cuidadosa de todo o processo de trabalho (8), o número de erros aumentou substancialmente (189 em 3 meses, 0,47% dos resultados de testes). Neste último relatório (8), erros por identificação incorreta representaram apenas 2,6% de todos os erros, mas a sua freqüência absoluta foi mais que o dobro daquela relatada por Lapworth e Teal (10). A heterogeneidade da literatura é ainda mais óbvia na Tabela 3, onde somente são relatadas as freqüências de erros destes e de estudos mais antigos.

Uma conclusão comum nesta revisão de dados sobre erros de laboratório é que ainda quando foram usados diferentes tipos de estudo, números de pacientes e técnicas de investigação, a distribuição de erros pelas diferentes fases de todo o processo de testes foi muito semelhante. Isso fica evidente apesar das grandes diferenças nas freqüências efetivas de erro. Particularmente, todos os estudos disponíveis demonstraram que um grande percentual de erros de laboratório ocorre nas fases pré e pós-analíticas, com menor número de erros ocorrendo durante a fase analítica. A evidência indireta da importância da fase pré-analítica advém dos resultados de diversos estudos recentes. No estudo Q-Probe do Colégio Americano de Patologistas (11), realizado em 660 instituições, um total de 5.514 em 114.934 requisições de pacientes externos (4,8%) foram associados à pelo menos um tipo de erro ordem de lançamento da requisição. Em 1.658 (1,4%) casos de requisições, um ou mais testes constantes da requisição não haviam sido pedidos no computador do laboratório, enquanto que em 1.221 casos (1,1%) pelo menos um teste que não constava da requisição foi pedido no computador. Um total de 2.130 requisições (1,9%) continha uma ou mais discrepâncias entre a requisição e o registro no computador do laboratório. Finalmente, em 943 requisições (0,8%), foi lançada prioridade incorreta para pelo menos um dos testes solicitados. Num levantamento australiano sobre erros de transcrição e erros analíticos, o percentual de erros de transcrição era de até 39%, sendo que os tipos de erros mais freqüentes estavam associados a erros de identificação dos testes requisitados, dos médicos solicitantes e/ou do paciente. O laboratório com o pior desempenho apresentava erros em 46% das requisições, mas até mesmo os três laboratórios com melhor desempenho somente conseguiram um percentual ³ 85% isentos de erro, com apenas um laboratório alcançando 95% (12). Outro indicador indireto da importância dos processos pré-analíticos advém de estudos que demonstraram que a avaliação da adequação do espécime é um fator pré-analítico crítico que afeta a exatidão e utilidade dos resultados de teste (13).

A Tabela 4 exibe os erros, pertinentes apenas à fase pré-analítica, detectados no Laboratório do Hospital San Raffaele durante um ano. Todos os problemas pré-analíticos que nos impediram de relatar determinado resultado for automaticamente atribuídos foram automaticamente coletados e distribuídos entre pacientes internos e externos. Os dados indicam o número de resultados de testes faltantes atribuídos a determinado tipo de problema pré-analítico, mas não o número de amostras com problemas (e.g., um único tubo hemolisado poderia ter causado a ausência de 20 ou mais resultados). A diferença entre os pacientes internos e externos é digna de nota: havia um total de 15.503 erros(0,60%) em 2.583.850 resultados de testes no caso de pacientes internos contra 792 erros (0,039%) em 2.032.133 resultados de testes em pacientes externos. São muitas as razões para essa diferença: (a) o controle direto de coleta de amostras nos pacientes externos contra coleta de sangue realizada por pessoal da enfermaria, que apresentam uma renovação maior e menor habilidade, e (b) a maior complexidade dos exames realizados e múltiplas coletas de sangue em pacientes internos.

Por conseguinte, é essencial que haja diretrizes para a coleta de amostras e para a avaliação dos espécimes submetidos a testes, porque a aceitação de espécimes inadequados para análise pode levar a informações incorretas capazes de afetar o tratamento de pacientes, mas somente com o monitoramento regular dos espécimes recusados e a identificação de fatores associados à rejeição é possível evitar erros e promover a melhoria ininterrupta da qualidade nos serviços prestados pelos laboratórios (14). Além disso, um volume crescente de evidências demonstra a importância da fase pós-analítica para o monitoramento e a melhoria do TAT (15), para melhorar a adequação de intervalos de referência (16), e para possibilitar validações e interpretações mais objetivas de dados por meio de sistemas especiais (17, 18). Recentemente, tem havido um interesse crescente na implementação e disseminação de diretrizes para o fornecimento de comentários interpretativos dos relatórios de laboratórios (19). Para prevenir possíveis erros, essa atividade crítica requer pessoal de laboratório com treinamento adequado; além disso, há a necessidade de garantia da qualidade no fornecimento de comentários interpretativos e na auditoria dessa atividade (20).

A Tabela 2 resume a seleção de relatórios publicados sobre erros na medicina de transfusões, levando em conta o efeito do erro sobre o paciente. Neste caso, os elementos essenciais foram extraídos: duração da coleta de dados; freqüência de erros de identificação incorreta; e efeito do erro sobre a saúde do paciente. Mais uma vez é notável a heterogeneidade dos resultados dos diferentes estudos; particularmente evidente é o grande número de riscos de erro (4,7% das transfusões) relatado por Baele et al. (22). No ponto 3, abaixo, apresentamos uma explicação tentativa para este fato.

A heterogeneidade dos dados relatados, além de sublinhar a total ausência de um ponto de referência, a falta de uma definição da "taxa de erros máxima aceitável", e a falta de uma classificação dos erros, evidencia alguns aspectos de relevância crítica:

• É necessária uma definição melhor do que são os erros de laboratório e suas causas. De fato, podemos concordar com a definição de erros de laboratório como "quaisquer defeitos, desde a requisição de testes até o relatório de resultados e sua adequada interpretação e a reação a estes", mas, como o nosso objetivo era identificar as etapas mais críticas no processo total de testes e estabelecer um plano estratégico para sua correção, diferenciamos:

• erros exclusivamente internos ao laboratório (erros analíticos, mas também um indevido aumento no TAT, ou a incorreta identificação de amostras durante a análise) e;

• erros de laboratórios causados por problemas organizacionais externos ao laboratório (isto é, incorreta identificação de amostra/paciente durante a coleta de sangue realizada por pessoal não pertencente ao laboratório).

Quanto aos erros internos no laboratório, um volume crescente de evidências demonstra que a taxa de erros analíticos melhorou consideravelmente (23); ela é influenciada pelo treinamento e qualificação do pessoal de testes (24, 25), pela adoção correta de regras definindo os erros permitidos na prática de um controle interno da qualidade (26). Além disso, já foram amplamente demonstrados a eficácia de esquemas de avaliação externa da qualidade e os programas de testes de proficiência, não apenas na identificação de erros analíticos, como também na detecção de suas possíveis fontes, desta maneira possibilitando aos laboratórios prevenir outros erros(27).

No tocante aos erros de laboratório causados por problemas organizacionais externos ao laboratório, essas causas estão muitas vezes relacionadas a outros erros freqüentes no tratamento da saúde e exigem medidas corretivas semelhantes, objetivando a melhoria da organização da enfermaria. São exemplos típicos desse tipo de erro os enganos na identificação de pacientes durante a coleta de sangue ou na administração de medicamentos e a transcrição de dados na ficha do paciente. Portanto, conforme declarado por David Blumenthal, "as maiores reduções na quantidade de erros de laboratório provavelmente resultam da cooperação inter-departamental em busca da melhoria da qualidade na coleta de espécimes e na disseminação de informações" (28). O papel da auditoria clínica na detecção desse tipo de erro e na melhoria do desempenho clínico recebe cada vez mais reconhecimento;os laboratórios precisam monitorar os incidentes adversos, aprender a como minimizar riscos através do seu estudo, e estabelecer procedimentos para preveni-los (29).

2) É importante classificar os erros de laboratórios relacionando-os com seus efeitos reais ou potenciais sobre as conseqüências para os pacientes, permitindo a definição da relevância do próprio erro. Uma amostra hemolisada é provavelmente menos problemática do que uma amostra incorretamente identificada ou um TAT demasiado longo numa situação crítica. Contudo, a hemólise anormal que impede a analise da amostra pode levar à requisição de uma nova amostra, o que prolonga o TAT, e é potencialmente muito danosa para pacientes críticos. Além do que, seria aconselhável definir a taxa de erros permitida a fim de proporcionar aos laboratórios uma meta realista para iniciativas destinadas à melhoria da qualidade.

3) É necessário definir um padrão para a detecção e o relatório de erros, e uma análise acurada dos riscos de erro no laboratório clínico precisa ser realizada. No relatório acima mencionado, Baele et al. (22) demonstram a existência de 1 erro em cada 21 transfusões (4,7%), enquanto outros relatórios indicam uma freqüência média de ~ 1 para cada 6.000 – 12.000 transfusões. Esse enorme risco de erro é atribuído à metodologia de análise do processo adotada pelos autores, que revisaram todas as transfusões realizadas em Hospitais Universitários na área de Bruxelas. De nosso conhecimento, este é o único caso de análise sistemática do processo de transfusão realizado junto ao leito do paciente, e demonstra o risco muito elevado de eventos rigorosamente controlados como as transfusões de sangue. A diferença enorme de sensibilidade entre um método de detecção de erro baseado em reclamações ou na detecção fortuita (sensibilidade muito reduzida) e outro método baseado na análise sistemática de todas as etapas indispensáveis para se completar o ato médico (sensibilidade muito alta) fica assim bastante evidente. A introdução da análise do processo nos laboratórios para a identificação do risco de erro relacionado a diversos procedimentos é altamente aconselhável (e.g., risco de erro de troca durante a retirada de sangue ou durante o processo analítico).

4) É importante definir maneiras para a redução dos erros de laboratório e possivelmente evitar completamente os que representam um risco significativo, adverso, real ou potencial, à saúde dos pacientes. É impossível em medicina, como em outras atividades humanas, eliminar completamente os erros, mas é possível reduzir o seu número. É aconselhável a adoção de técnicas para a prevenção e avaliação de erros, talvez com base em exemplos extraídos de algum setor industrial, como o aeronáutico, por exemplo, e buscar sistemas com taxas de erro na faixa de 1-2 ppm. Para atingir a meta de redução de erros é necessário ir além do laboratório e reorganizar atividades nas enfermarias. Isso pode ser feito por meio de programas educacionais apropriados e pela introdução de tecnologias de automação e robótica. Essas soluções também são capazes de contribuir para a redução de erros em outros aspectos do tratamento de pacientes, como na administração de medicamentos, conforme demonstramos em outros estudos (30,31). Erros atribuídos a falhas na identificação de amostras ou pacientes tem sido reconhecidos como uma fonte significativamente grave de problemas que irão deteriorar a qualidade do tratamento da saúde em todos os países desenvolvidos se não forem tomadas ações corretivas apropriadas (32-34). Neste particular, os países europeus da CEN (Comissão Européia de Normalização), a organização européia de padronização, há pouco aprovaram por unanimidade um documento (34) sobre a identificação correta de pacientes independentemente do ato médico. Na Itália, elaborou-se um documento sobre a segurança do paciente, incluindo padrões sobre a identificação correta de pacientes, já divulgado e que está sendo implementado.

5) Um programa apropriado para a detecção de erros e medidas adequadas para a redução de erros que quantifique os efeitos dessas medidas e avalie se a redução pode ser considerada satisfatória, são criticamente necessários. A redução do número de erros é um indicador válido e sensível da eficácia das ações corretivas somente no tocante a erros menos graves (erros com pouca ou nenhuma conseqüência sobre a saúde dos pacientes, tais como um tubo vazio ou uma amostra hemolisada). Os erros importantes, os que representam risco para a saúde dos pacientes (e.g., identificação errônea do paciente durante a coleta de sangue, a administração de medicamento ou transfusão) parecem ser, pelo menos na literatura revisada, acontecimentos raros (nenhum autor relata conseqüências muito sérias). Por conseguinte, depender dessa redução para avaliar a eficácia das medidas adotadas pode não ser suficiente. Nesses casos, o único critério eficiente é a demonstração, por meio da análise do processo, de uma redução adequada do risco de erro. A introdução e o uso de sistemas auto-controlados e não passíveis de serem contornados na identificação de pacientes pode contribuir para a diminuição dos erros (31, 33, 34).

6) Uma outra medida fundamental seria a criação de uma cultura em que a existência de risco fosse reconhecida e a prevenção de danos fosse responsabilidade de todos. Conforme declarado em Leape et al (35), o insight capaz de transformar a medicina (e a Laboratório Clínico) da pesquisa do fator humano é que os erros são raramente atribuíveis a falhas pessoais, inadequações e falta de cuidado, e que a nomeação, a atribuição de culpa, o descrédito e a punição não têm funcionado no tratamento e na redução dos erros. Diversa e contrariamente, a nova maneira de encarar o problema centraliza sua pesquisa na maneira como as pessoas, individualmente ou em grupos, e como organizações, constroem a segurança. Isso exige treinamento, educação e cultura.

Tabela 1. Revisão da literatura sobre erros de laboratório.
  Hofgartner e Taft (9)
Setor do laboratório Lapworth e Teal (10) Química clínica Goldschmidt e Lent (7) Todo o laboratório Nutting et al. (36) Tratamento primário Plebani e Carraro (8) Laboratório de estatística Stahl et al. (37) Todo o laboratório Testes de genética molecular levantamento no local (2 laboratories) Testes de genética molecular questionário (101 enviados, 42 respostas)
Período de coleta de dados 1 ano 6 anos 6 meses 3 meses 3 anos 10 anos 1 anor
No. de testes -99.7000 ND' ND 40.490 676.564° 4.234 88.394
No. de pacientes -24.9000 ND 160 714 ND ND ND ND
No. de erros 120 133 180 189 4135° 16 293
Freqüência 0,05% dos pacientes   0.11% dos pacientes 0,47% dos resultados dos testes 0,61%b dos resultados dos testes 0,38% dos resultados dos testes 0,33% dos resultados dos testes
Fase pré-analítica 31,6% 53% 55.6% 68,2% 75%b 44% 60% A.
Fase analítica 31,6% 23% 13.3% geral (4.4% caso laboratório de apoio; 40% se POCT) 13,3% 16%b 31% 19%
Fase pós-analítica 30,8% 24% 30% 18,5% 9%b 12,5% 15%
Fases múltiplas 6%         12,5% 6%
Erros de identificação 41(34%) 77(58%) ND 5(2,6%) ND ND ND
Impacto sobre resultado do paciente ND            
Nenhum   43%   74%     63,4%
Leve   23% (atrasos) 13% 19,6% (investigações adicionais)   25% 20%
Moderado   26% (potential damage) 13% 6.4% (modificação inapropriada de terapia)   50% 10.2%
Grave   8% (intervenções médicas erradas)       25% 6,4%
Muito grave   Nenhuma          
a ND, não definido; POCT, testes em ponto de atendimento
b Valores médios dos 3 anos


Tabela 2. Revisão de erros de transfusão. Estudos relacionados a transfusões
  Renner et al. (38) McClelland e Phillips (39) Linden e Kaplan (40) Shulman et al. (32)
Período de coleta de dados 4 semanas 2 anos 22 meses Estudo piloto de 6 meses, seguido de experiência principal de 2 anos
Descrição da amostra 712 hospitais (US) 245 hospitais (UK) 285 facilidades regulamentadas (US) Hospital de 2.000 leitos (US)
Número de observações Pulseiras dos pacientes verificadas em 2.463.727 ocasiões ND 1.784.641 transfusões de hemácias 35.000 transfusões/ ano
Resultados e situação final dos pacientes 67.289 erros (2,7%) Total de incidentes, 111 (1/29.000 transfusões); óbitos, 6 (1/550.000 transfusões); morbidade, 12 (1/275.000 transfusions); sem efeito adverso, 93 (1/36.000 transfusões) Total de erros durante o período do estudo, 104; (transfusões ABO-incompatíveis, 54(1/33.000); erros ABO-compatíveis (estimados), 96 (1/ 19.000) Transfusão ABO-incompatível, 1/6,000 pacientes de transfusão
Tipes/causs/fontes de erro Pulseira ausente, 49,5%; múltiplas pulseiras, 18,3%; dados incompletos, 17,5%; dados parcialmente incorretos, 8,6%; dados ilegíveis, 5,7%; pulseira errada, 0,5% Tubo de sangue errado, 23; erros de laboratório, 6; transfusão de sangue errado, 82 Banco de dados externo, ( 61 45 pacientes incorretamente identificados); no banco de sangue e fora, 18; no banco de sangue, 25 Principal causa de erros, identificação incorreta


Tabela 2. (Continuação) Transfusão e estudos relacionados
Taswell et al. (41) Baele et al. (22) Linden (42) Williamson et al. (43) Linden et al. (44)
10 anos (1982-1992) 15 meses 5 anos (New York State Department of Health [Depto. Saúde do Est. de Nova York); 1 ano FDA 2 anos (1996-1997) (1996-1998) 10 anos (1990-1999)
1 hospital (US) 3 teaching hospitals (Belgium) a ND (US) 1996-1997:94 hospitals; 1997-1998:276 hospitals (UK) 256 serviços de transfusão (US)
ND 808 pacientes em 1448 submetidos a cirurgia receberam transfusões com 3485 unidades de RBC ou FFP. ND 3 400 000 transfusões de hemácias 9 000 000 transfusões
Taxa geral de erro, 20-30/ 10 000 procedimentos; identificação, 2.2/10 000;desempenho, 15.5/ 10 000; transcrição, 7.9/10 000; armazenagem e recuperação 2.7/10000 Incidência de erros, 165 (1/21 transfusões). Óbitos de transfusões ABO-incompatíveis, 1/1 700 000 unidades no Estado de Nova York;1/1300 000 unidades nos EUA, (FDA) Erros, 191 (1/18 000); óbitos 9 (1/199); morbidade grave, 42 (1/199); morbidade menor ou negativa, 136 (1/ 199); óbitos atribuíveis a condições subjacentes, 12(1/199)  
Erros de identificação, 1-3/10 000 procedimentos; desempenho, 15-17/10 000; transcrição, 5-11/10000 165 erros/3485 transfusões ; (erro de identificação, 7; e. de registro, 61; e. de rotulagem, 6; falha na documentação de transfusões, 83; outros, 83)     Administração a pessoa errada, 38%; erros de flebotomia, 13%; erros de banco de dados, 29%; erros múltiplos, 15%; outros, 5%
a FDA Food and Drug Administration: ND, não definido; RBC, hemácias; FFP, plasma congelado fresco.


Tabela 3. Taxas de erro em laboratórios clínicos.
Um erro identificado em cada:  
33-50 eventos McSwiney e Woodrow (45)
50-100 eventos Souverijn et al. (46)
330 eventos Chambers et al. (47)
1,000 events Boone (48)
8,300 resultados de laboratório ou 2.000 pacientes Lapworth e Teal (10)
900 pacientes Nutting et al. (36)
214 resultados de laboratório Plebani e Carraro (8)
164 relatórios de laboratório Stahl et al. (37)
283 resultados de laboratório Hofgartner e Tait (9)


Tabela 4. Tipos de erros pré-analíticos registrados durante o ano 2000 no Laboratório do ‘San Raffaele Hospital’.
  No. de resultados em falta
Tipo deErro Pacientes Internos Pacientes Externos
Amostra hemolisada 8,494 256
Amostra insuficiente 3,256 102
Amostra incorreta 1,824 289
Amostra coagulada 792 80
Identificação incorreta 287 2
Falta de assinatura (grupo sanguíneo) 266  
Tubo vazio 238 8
Ausência ou erro de compilação do módulo de acompanhamento 120  
Amostra não refrigerada 75 6
Tubo quebrado na centrífuga 57 36
Teste não reservado 31  
Urina não acidificada 24  
Recipiente aberto 20 13
Módulo sem assinatura 14  
Volume de urina não indicado 5  
Total 15,503 792
 
Referências

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