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Sociedade Brasileira de Análises Clínicas ABNT INMETRO
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Determinação de insulina

Carlos A.C. Sannazzaro (Professor Doutor da FCF-USP), Silvia Cardoso (Farmacêutico-Bioquímico do Lab. FAP)
Erika Taga (Farmacêutico-Bioquímico do Lab. FAP), Adelaide José Vaz (Prof. Associado da FCF-USP)
 
Insulina humana – estrutura e secreção
A insulina é o principal hormônio responsável pelo controle do metabolismo da glicose. É sintetizada nas células beta das ilhotas de Langerhans, assim como o seu precursor a proinsulina (9,6 Kda, 86 aminoácidos). A proinsulina é então secretada nos grânulos secretores, para formar o peptídeo C e a insulina.

A insulina é um polipeptídeo que contém duas cadeias ligadas por pontes dissulfito. A cadeia A com 21 e a B com 30 aminoácidos. A insulina e o peptídeo C são secretados em quantidade equimolar na circulação portal. Na circulação humana, o tempo de meia-vida da insulina é de aproximadamente 3-5 minutos.

Quase todos os tecidos metabolisam a insulina, mas 80% são degradadas no fígado e rim. De fato, 50% da insulina são degradadas no fígado. Como as proteínas e o peptídeo C não são agregados pelo fígado eles se acumulam no sangue e contabilizam 15-20% da quantidade total de insulina e proinsulina no estado basal. A glicose é o primeiro sinal de estímulo de secreção de insulina. Assim é recomendável a dosagem de ambas para uma interpretação correta da medida de insulina.
 
Uso clínico da determinação da insulina

A principal utilidade da determinação da insulina é a investigação das causas de hipoglicemia. A hipoglicemia pode ser devido ao hiperinsulinismo, insulinoma, síndrome da insulina auto-imune ou por fatores não mediadores da insulina. Hipoglicemia é geralmente definida com base na concentração plasmática de glicose (< 3,3 – 2,8 nmol/l ou 70 – 105 mg/dl em adultos e < 3,0 – 2,5 nmol ou 60 –100 mg/dl em crianças).

A determinação do peptídeo C é importante porque pode excluir a suposição de interferência analítica ou hipoglicemia induzida, causada pela administração de insulina animal ou humana. Também é necessário determinar as proinsulinas as quais podem estar em sua forma molecular predominante de insulina na circulação. Os valores que indicam secreção anormal de insulinas, estão contidas no Quadro 1:

Quadro 1 – Critério para diagnóstico de hiperinsulinemia reativa (associada a hipoglicemia e outros sintomas)

Insulina Peptídeo C Proinsulinas
Dosagem não-específica Dosagem específica
> 5 – 10 mlU/l > 2 – 3 mlU/l >0,2 – 0,3 nmol/l > 5 – 10 nmol/l
Fonte: SAPIN, R. – Insulin assays – When and how shoud they be perfomed – Clin. Lab. Int., v. 15, n. 4, p. 6-8, 2001.

A tolerância diminuída a glicose (IGT= Impaired Glucose Tolerance) e diabetes mellitus são diagnosticados com base na hiperglicemia crônica. A medida da insulina é usada no estudo destas patologias.

No diabético tipo 1 – a insulina pode ser útil nos estudos farmacológicos. O tipo 2 resulta de uma resistência a insulina associada a um defeito de secreção da insulina. Dosagens específicas de insulina são usadas para determinar a deficiência relativa de insulina e a incapacidade do pâncreas em compensar a resistência à insulina, por uma adequada secreção de insulina. A determinação da insulina tem o valor clínico no diagnóstico de resistência severa a insulina. Associada à determinação do peptídeo C, a medida da insulina pode ser usada para acessar a função das células beta especialmente nos casos recém-diagnosticados de Diabetes tipo 1. Ela também é importante para diferenciar os Diabetes do tipo 1 dos Diabetes do tipo 2.
 
Métodos de determinação de insulina

Ensaios biológicos in vivo somente são usados nas etapas de padronização. A cromatografia líquida de alta eficiência - fase reversa (RP-HPLC), atualmente denominada FR-CLAE, é utilizada para separar: proinsulina, insulina e peptídeo C, mas não é utilizada como método de referência. Os métodos mais comumente usados nos laboratórios são os imunoensaios.

O radioimunoensaio (RIE) para insulina foi desenvolvido por Yalow e Berson utilizando anticorpos policlonais e insulina marcada. Soros policlonais podem apresentar reação cruzada com proinsulinas, e por esta razão esses testes são considerados não-específicos.

Há um teste RIE insulino-específico. LINCO-RIA (LINCO Rsearch INC., Missouri, USA), que usa anticorpo para um epítope específico da insulina da porção amino-terminal da cadeia A.

O desenvolvimento da tecnologia de produção de hibridomas secretores de anticorpos monoclonais permitiu a obtenção de anticorpos mono-específicos para uso como reagente analítico. Ensaios imunométricos não-competitivos (IMA= Imunometric Assay) tipo sanduíche foram introduzidos usando dois tipos de anticorpos, geralmente policlonais de captura em fase sólida e monoclonais conjugados com substâncias não-isotópicas, como enzima. Essas gerações de ensaios são consideradas específicas e, geralmente mais sensíveis que o RIE.
 
Padronização:

A calibração dos testes de determinação da insulina é realizada usando um padrão internacional. Em muitas determinações é usada a velha preparação de referência de insulina humana 66/304. Para converter as unidades internacionais em unidades de massa, podemos fazer pelo primeiro padrão internacional (codificado com 83/500), o qual contém insulina humana semi-sintética com uma potência de 26 unidades internacionais por mg.

Os valores de insulina pela metodologia IMA são 20-40% mais baixos que os obtidos por RIA, devido à menor especificidade deste último. A Americam Diabetes Association, vem propondo a uniformização de métodos a partir de um método de referência, o que ainda não ocorreu.
 
Requerimentos das amostras:

Para os ensaios de insulina, a amostra de sangue pode ser coletada com ou sem anticoagulante (Heparina ou EDTA para a maioria dos ensaios, exceto para aqueles que usam fosfatase alcalina como enzima marcadora do conjugado).

Amostras de plasma para a determinação de insulina podem ser estocadas por 3 dias a 20º C, duas semanas a 4º C e alguns meses a-20º C. Congelamentos e descongelamentos repetidos não interferem significativamente nos resultados.
 
Hemólise:

A enzima que degrada a insulina (IDE = insulin-degrading enzyme) presente nas hemácias é liberada no soro quando ocorre hemólise. A extensão do efeito da hemólise na determinação da insulina depende de condições como o tempo e a temperatura de incubação. Mesmo pouca hemólise em amostras à temperatura ambiente pode provocar um decréscimo acentuado nos valores de insulina. A hemólise pode fornecer um resultado com valores anormalmente altos de insulina, mas mais freqüentemente é a causa de resultados falsamente baixos.

No passado, resultados alterados de insulina em pacientes com tumores de tecido eram interpretados como sendo devidos a alguma substância contida nos tumores. Atualmente sabe-se que estes resultados se devem a alta concentração de IDE nos tumores liberada na circulação. O EDTA não inibe a degradação da insulina em plasma hemolisado. Talvez a adição de inibidor de IDE mais potente como N-etilmalimido e ácido p-cloromercurifenilsulfônico, 1 mM, possa prevenir a degradação da insulina, mas não é comum seu uso.
 
Anticorpos antiinsulina:

Anticorpos séricos antiinsulina interferem nas determinações de insulina. Estão presentes em pacientes com síndrome auto-imune e freqüentemente em diabéticos insulino-tratados, mesmo quando fazem uso de insulina recombinante humana.

Cerca de 30% dos pacientes diabéticos do tipo 1 tem anticorpos antiinsulina antes da administração de insulina e 50% dos pacientes diabéticos tratados com insulina humana desenvolvem estes anticorpos.
 
Determinação da insulina livre:

Anticorpos antiinsulina devem ser removidos da amostra antes da determinação da insulina livre. Isto é usualmente obtido pela precipitação dos mesmos como polietilenoglicol (PEG). Após centrifugação, a insulina livre é determinada no sobrenadante. É recomendado que a precipitação com PEG seja feita com o soro ou plasma fresco, recém obtido, para que se respeite o equilíbrio nativo entre insulina livre e ligada.
 
Critério de eleição do método analítico:

Os métodos imunométricos são preferidos na rotina no laboratório clínico pela maior sensibilidade e especificidade. Já o RIE pode ser usado quando se deseja a medida total de insulina secretada, como nos casos de insulinoma.

Obs.: Este trabalho foi adaptado do original: Sapin, R. – Insulin Assays – When and how should they be performed – Clin. Lab. Int., vol. 15, n.4, p. 6, 8, 2001.
 
Referências Bibliográficas:

CHEVENNE, D.; TRIVIN, P.D. Insulin assays and reference values. ....................Diabetes Metab. 1999; 25:459-76;

CLARK, P.M. Assays for insulin, proinsulin(s), and C-peptide. Ann. Clin. .............Bicohem, 1999; 36:541-64;

SAPIN, R. Recent insulin inmunoassys: improvements and limits. J. Clin. ...........Ligand Assays, 1996; 19 (Supp 1): 100-1

SAPIN, R. Insulin assays – When and how should they be performand-. .............Clínical Laboratory International, vol. 15, n. 4, p. 6-8, 2001.
 
Pesquisa de insulina oral na forma de cápsulas é promissora

Durante estudos na Fase 1, doses únicas de insulina comercial apresentadas na forma de cápsula foram bem toleradas por voluntários saudáveis - sem efeitos colaterais significativos. Os responsáveis pelo desenvolvimento deste método de administração acreditam que a insulina em forma oral pode satisfazer a condições de tempo, localização e concentração necessários para sua administração eficaz em casos de diabetes. A experiência foi conduzida por médicos de uma unidade de diabetes da Hadassah University (Ein Kerem, Israel). Existem planos para uma futura realização de testes de acompanhamentos dessa experiência com insulina oral em pacientes diabéticos.

A insulina oral utilizada é uma tecnologia nova de administração desenvolvida pela Emisphere Technologies (Tarrytown, NY, EUA; www.emisphere.com). A tecnologia é de base ampla, baseada no desenho e preparação de compostos químicos sintéticos, denominados agentes administradores, ou transportadores, que facilitam a absorção gastrintestinal de moléculas da droga pela imitação do processo de transporte natural do corpo. As moléculas da droga existem naturalmente em diferentes formatos ou configurações, algumas das quais podem ser transportadas através das membranas das células. Uma vez atravessada a membrana celular pela droga, o transportador se dessocia da droga, e esta restabelece sua distribuição natural de absorção, garantindo que as moléculas absorvidas estão no seu estado terapêutico ativo.

A insulina administrada via oral é levada diretamente ao fígado pela via portal da circulação, contrastando com a insulina injetada que é concentrada na circulação sistêmica. A insulina absorvida oralmente imita o rápido aumento e diminuição na secreção de insulina em resposta à alimentação. Sendo oral, a insulina é levada diretamente ao fígado, e espera-se que isso represente mais segurança. A Emisphere também está desenvolvendo um fragmento do hormônio da paratireóide (PTH) oral para tratamento da osteoporose, e heparina oral para até 30 dias de uso nos casos de tromboses profundas (DVT).

"Os resultados deste estudo são muitos encorajadores sendo o primeiro passo para entregar ao comércio uma formulação oral da insulina", declarou o Prof. Norman Fleischer, do departamento de endocrinologia da Albert Einstein School of Medicine (New York, NY; EUA).

"Aguardamos os estudos adicionais que não somente provarão que a administração da insulina oral é possível, mas que esta é uma terapia viável para os que sofrem de diabetes em todo o mundo."

Fonte: Biotech News International, Vol. 6 No. 5, 9/10/2001.
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